quinta-feira, 28 de maio de 2009

BOA NOITE MARIANA


Olhava o computador desligado sem ter nada o que fazer. Era o dia dos namorados e mais uma vez Mariana estaria solteira. Chovia naquela noite e a única saída era o bate papo no internet. Preferiu não usar um apelido dessa vez e entrou com o nome de Mariana mesmo. Não percorreu muitas salas e logo um nick lhe chamou a atenção.

Tinha o nome de Mário e dizia ter 1.82m, 80k bem distribuídos. Os olhos eram pretos, os cabelos lisos, inteligente, carinhoso e procurava algo sério, pois já estava cansado de ficar por ficar. Por sua vez, Mariana não mentiu e disse ser loira, 1,75m, 69kg, olhos verdes, universitária, independente, morava só e inteligente. Também procurava algo sério desde o ultimo namoro. Pela chuva que caia e por ele estar de carro, marcaram no apartamento dela.

Depois de uma hora e meia ele chegou. Trazia nas mãos uma capa de chuva, um garrafa de vinho branco seco e bombons: Eram os preferidos dela. Ela encantou-se. Usava um vestido vermelho, sapatos altos, não abusou da maquiagem nem do decote. No cabelo um grampo discreto e o perfume era o de sempre. Ele entrou, conversaram, comeram alguns chocolates, beberam todo o vinho com a calda de pêssego que ela tinha na refrigerador, trocaram carícias, se beijaram e foram pra cama. As duas velas ficaram acessas na mesa.

Depois de tudo Mariana dormiu. Ele levantou-se cedo, andou pelo apartamento, foi na sacada, depois tomou uma ducha e sorriu. Admirava Mariana dormir sobre os lençois brancos de setim. Foi na cozinha, ascendeu um cigarro, tomou água e abriu todo o registro central do gás no apartamento. Voltou ao quarto, ascendeu uma vela que trazia na capa de chuva ao pé da cama e de novo sorriu. Dessa vez, com mais vontade. Fechou as janelas e as portas e num papel de chocolate escreveu: Boa noite Mariana!

Desceu os 8 andares do prédio pela escada. Na manhã seguinte, leu o jornal na página policial sorrindo, enquanto tomava seu café.

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

terça-feira, 19 de maio de 2009

O PALHAÇO

Lembro-me da primeira vez que fui em um circo. Sabe daqueles circos que passam de vez em quando por nossa cidade? Pois é, durante os dias que estiveram por lá, meus pais me levaram em uma única apresentação. Única e inesquecível.

Quando chegamos lá, as arquibancadas já estavam lotadas e pedindo licença aqui, dando um jeitinho empurrãozinho acolá, conseguimos um lugar lá em cima, na ultima fileira. Logo os pipoqueiros passaram, algodão doce, pirulitos... eu não quis nada. Estava ansioso pelo show.

Não demorou muito pra anunciarem o iníco da festa. Em seguida enteou um palhaço lá em baixo, no picadeiro, para minha alegria. Até do seu nome ainda lembro-me: Era Sabugo. Ele dançou, pulou, gritou, brincou... todos o aplaudiram. Antes que deixasse o palco, entrou outro palhaço. Esse era o Goiaba. Junto com o Sabugo, também brincou, sorriu, "pintou o sete". Para mim, eram momentos mágicos. Nunca tinha visto nada igual.

A festa ainda continuou e tudo estava muito bonito. Mas o que nunca esqueci, foram dos palhaços, dos seus rostos. Eles estavam tristes, pareciam angustiados. Eram figuras pintadas que escondiam algo por dentro. Eles animaram as crianças e a alegria que passavam ao público, era apenas um disfarce.

Desde aquela época, compreeendi que os palhaços também choram, se angustiam, sofrem, se deprimem. Compreendi que eles também são humanos, são fracos por vezes e se entristecem também.

Mas de todas, a maior lição que aprendi, foi a de saber, que a alegria, talvez seja a única virtude que passamos aos outros sem nós mesmos possuirmos.

Paulo Veras é psicólogo em Goiânia-GO

quarta-feira, 13 de maio de 2009

EU QUERIA


Eu queria mais sol, mais lua, mais brisa no rosto,
Eu queria mais sorrisos, mais lágrimas, mais gritos...
Queria mais flores no caminho,
Mais perfume no ar.
Queria mais chuva na grama,
Poços de lama, muitas estrelas a brilhar.

Queria mais amigos, mais irmãos, mais verdades
Queria mais mais sonhos, mais alegrias.
Queria apertos de mãos, mais encontros,
Queria a verdade dos teus beijos,
Teu abraço imóvel, teu sussurrar,
Um sorriso faceiro nao me negar.

Sabe, eu queria mais cor, mais amor,
Queria mais estradas, mais subidas, muito a descer.
Eu queria noites escuras, mais fogueiras, mais violões,
Queria pássaros a cantar, mais redes pra descansar.
Mais liberdade, mais emoção, mais união,
Queria jamais esquecer.

Queria também um fim do caminho calmo e sereno,
Muitas lembranças, nada de sentimentos vãos.
Queria um descanso profundo,
Queria mais fé, mais oração,
Queria a pureza do adeus, a separação doída,
Queria um olhar firme ao infinito.
Queria a vida.

Paulo Veras é psicólogo em Goiânia-GO

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O VALOR DA FAMÍLIA NO PROCESSO DE INDEPÊNDENCIA


Falar da independência da família, sempre me remete à mamãe águia, como forma de representar um ciclo da vida. A mamãe águia, com toda boa mãe, sempre presa pelo carinho, pela proteção e pelo cuidado para com seus filhos. Faz um ninho seguro e confortável, cobre-o com pele de ovelha e o mantêm sempre aquecido. Além disso, sempre fica presente no ninho, saindo de lá apenas para buscar comida, onde depois de encontrada, alimenta seus filhotes no bico. Um papel exemplar para uma mãe.

Mas com o passar dos dias, essa mamãe nota que seus filhos já podem, aos poucos irem perdendo essa dependência e devem, portanto, começar a sentir a vida, como de fato é fora do ninho. Uma das primeiras medidas a ser tomada, é a retirada da lã que cobre o ninho: Os filhotes começam a sentir os espinhos que há por debaixo da lã quente e confortável.

Em seguida, a comida que vinha ao bico, não é mais colocada e cada um dos filhotes, precisa dividir entre si, seu pedaço de alimento. Há assim, uma certa inquietação no ninho e o que era cômodo, passa agora a ser desconfortável. A mamãe águia, que cada vez mais fica ausente do ninho, procura agora uma forma de fazer com que cada um dos seus filhotes procure sua independência.

O próximo passo, é levá-los a voar. E não é uma das tarefas mais fáceis. A mamãe águia sobe a certa altura, com seus filhotes presos nas asas, e de lá, os arremessa, forçando-os a voar. Eles precisam voar! E nesse treino, ela os deixa quase cair ao solo, onde novamente, os leva às alturas e mais uma vez os joga no espaço. Logo, eles estão voando.

Esse processo deve acontecer conosco, os humanos. Para isso, a base que norteia esse valor, deve ser, sem sombra de dúvidas a família. E é esse processo familiar que nos coloca nas relações com o outro, que nos dá noção de troca, valores, regras, leis, disciplina, coragem, enfim, é o ápice do desenvolvimento biopsicossocial do ser humano.

O excesso de carinho, a proteção demasiada, o rodear a criança com objetos de consumo não fará desse filho, um independente equilibrado, capaz de fortalecer seus laços com o outro, nem tão pouco, capaz de fazer seus julgamentos e de projetar seus ideais.

Não podemos também, confundir essa independência, como quebra do vínculo familiar. A independência proposta aqui, deve ser entendida como o equilíbrio do ser humano, que lhe dá capacidades para se colocar no lugar do outro, perceber seus limites e suas possibilidades, entender a capacidade dos que se relacionam no meio, e acima de tudo, capacidades também, para formar uma família.

A sociedade que esse indivíduo encontrará lá fora, será uma extensão da família que o assegurou, que o ensinou a respeitar as diversidades, o diferente, o novo sem contudo desrespeitar o velho. Deve ser uma família, baseada em valores morais, princípios éticos, com suas bases religiosas, que preserva sua cultura, sua história e acima de tudo, leva seus membros a construir seus próprios valores, o que só será possível, mediante a independência.

O papel fundamental da família deve, portanto, ser de assegurar esses valores, que hoje, cada vez mais se perdem com o supérfluo e com a desvalorização do seio familiar. Deve ser entendido também, que o equilíbrio da independência deve partir da base familiar, onde cada um dos membros entende seu papel, sabe as suas tarefas e respeita o limite de cada um que compõe a casa.


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO. 

TRABALHANDO COM O MEDO INFANTIL

Senhores Pais, é natural e absolutamente normal que suas crianças pequenas sintam medo. Bem como, o nervosismo é um sentimento natura...