segunda-feira, 13 de julho de 2015

A MORTE


E aí de repente a gente morre. Simples assim. Do nada! Sem fazer um aviso formal, ela vem, sem receios e nos leva. Pode ser de dia ou de noite, com chuva ou com sol, no calor ou no frio, cedo ou a tarde... com ela não tem acordo. Você deve conhecer alguém que já morreu e não avisou antes. Muita ingratidão. Mas você deve também conhecer muito mais pessoas que vão morrer e que da mesma forma será: não avisarão antes!

E de fato não sabemos como será. Penso que ninguém soube com antecedência como seria sua morte. Talvez até por um segundo pensamos como ela deve ser e que tipo de festa deve acontecer, mas nada como detalhar o dia que ela vem. Quem sabe será em um acidente automobilístico, na água, num assalto, dormindo, correndo, talvez quem sabe num voo, com amigos, com desconhecidos ou será só? Será se vai ser um um hospital, num leito, a conta gotas, ou de repente? Ou será suicídio diário? Porque não uma bala perdida? Mas pode ser serena e calma, ao lado da família, com alguém segurando a nossa mão esquerda, com os anos avançados. E tenha certeza: ela nunca vem na hora certa. 

Parece um processo injusto. Sem ao menos nos dar um tempo para resolver umas questões, ela vem e nos leva, sem volta, sem erro. Eram tantos e-mails pra ler, viagens a fazer, estudos, trabalhos a ser entregues, a casa a ser limpa, o aniversário a ser feito, a conta de água que ia ser paga, o carro que ia ser lavado no fim de semana, o amigo que ficamos de visitar, a mousse a ser elaborada no feriado e até mesmo o beijo que não foi dado. Os planos do casamento, da gravidez, do nascimento do filho, a compra da casa própria e a vida melhor que queríamos tanto.

Daquele momento em diante, somos tratados como um corpo. Até nosso nome é esquecido. Nu, sozinho, frio, gelado, sem cor, olhos cerrados, boca aberta quem sabe, lá estamos nós, esperando por alguém que nos olhe e nos cubra, pelo menos. Toda timidez some. Ninguém nos sorri, ninguém conta uma piada. Por certo nos apalpam, beijam, falam baixo e lamentam. As notícias continuam correndo, como se morrer fosse um espetáculo, onde quanto mais platéia, melhor. Irão repetir como foi a morte, dezenas, centenas de vezes.

A partir daí nos tratam com lágrimas, carinho e piedade. Visitas veem de longe para nos ver. Pessoas que nunca nos visitaram aparecem, abraçam os nossos, choram e até postam os pesares na redes sociais. A família, paga uma funerária para nos limparem e deixar mais um pouco sobre a terra. Nos colocam em um caixão caro, onde quase sempre a família faz força para pagar. Colocam uma roupa que nunca usamos antes, sem nos perguntar se gostamos da cor e procuram um bom túmulo, um horário bacana para o enterro e até atrasam a espera de uns e de outros. Algumas coroas de flores chegam com frases prontas, além daquelas que já nos cobriram. 

É muita bobagem num dia só! Já pensou nisso!?

A impressão é que damos mais valor a morte do que a vida. Estranho isso. Nunca temos tempo para os amigos, família... nunca viajamos e nem estudamos porque não temos tempo. Nunca mandamos flores porque não somos românticos. Raramente elogiamos e direcionamos palavras de conforto e carinho às pessoas que estão à nossa volta. A saúde quase sempre é esquecida e as relações que nos mantem vivos não são alimentadas. Gastamos na morte, o que evitamos gastar na vida. Ela foi curta e além de tudo, ainda foi pequena. Que ironia. 

Corremos dia e a noite, usamos nossa ambição para ter muito. Atropelamos o processo, o tempo, as pessoas, o amor.... pra que? Pra nada! A morte chega e nos iguala. O fato inevitável da vida, vem e sem escolha, nos torna justos e iguais como deveríamos ter sido em vida. O que muda é apenas a posição na fila. Mas a senha de cada um de nós irá chegar. Que privilégio não? 

Devemos observar que o que não foi feito na vida, não adianta mais fazer na morte. Nunca visitou alguém que você gosta? Não precisar ir no velório. Não disse que o amava? Poupe-se de abraçar o caixão no cemitério. Não deu uma flor que seja, em vida? Não gaste seu dinheiro com uma coroa para ser levada ao funeral. Falava mal e difamava durante a vida? Não gaste suas lágrimas no enterro. Lembre-se que, provavelmente, quanto maior for o choro, maior é o remorso. 

Pensemos nisso. Pensemos no valor da vida. Pensemos de que forma queremos o nosso velório. Pensemos de que forma queremos ser lembrados por aqueles que vão depois de nós. Pague suas dívidas em vida. Pode ser que dê tempo...

Porém antes de tudo, pense em que tipo de vida está levando. Lembre-se que o espetáculo maior é a vida. O que deveria ser feito na morte, faça antes, em vida. 

E ainda pense: O que nos separa uns dos outros não é a morte: É a vida!


Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


TRABALHANDO COM O MEDO INFANTIL

Senhores Pais, é natural e absolutamente normal que suas crianças pequenas sintam medo. Bem como, o nervosismo é um sentimento natura...