segunda-feira, 28 de março de 2016

CARTA PARA 2065

Sabe, não sei ao certo como chamar você. Não sei o seu sexo, não sei a sua cor, não sei como brilha seus olhos. Não sei o seu nome, nem a sua idade. Apenas sei que estás lendo esta carta, que resolvi escrever na páscoa de 2016, 50 anos antes deste momento. Saiba que estou feliz por ela ter chegado até você. Leia bem devagar e dispense um momento dos seus afazeres para apreciar este presente.

Quero dizer a você que nunca vamos nos conhecer. Nunca! Nem por fotografias ou redes sociais. Mesmo com toda a tecnologia que já havia no meu tempo e muito mais avançada no seu tempo, não fará esse encontro. Você veio de um sêmen congelado há 76 anos atrás. Não se lamente ou se frustre. Essa prática estava ficando comum na época. Portanto, você também não saberá a cor da minha pele, a altura e o peso que coube a mim, a cor dos meus cabelos e nem conhecerá a minha forma de sorrir amiudando os olhos.

Há 50 anos antes, este mundo era bem diferente, mas já haviam as frustrações, os medos, as incertezas, as paixões mal resolvidas. Hoje, é preciso acordar cedo, batalhar, estudar, construir a estrada para um futuro melhor. Se proteger, desconfiar das pessoas e andar sobressaltado e em alerta. Nos seus dias, penso que o homem deve estar pisando na lua sempre, em marte e porque não em Júpiter. Imagino que os carros estão mais velozes, que as pessoas estejam mais frias, os rios mais poluídos e quase todos usam drogas.

Porém, há 50 anos também já haviam pessoas honestas, boas, sinceras... a palavra amigo já havia sido inventada, a palavra família também e já havíamos aprendido a sorrir. Penso que em 2065 isso ainda exista. Ame sua família e conte suas bênçãos a ela. Deixe para trás a dor que o dia a dia irá te causar e nunca deixe de sonhar. Era o que eu fazia muito. Todas as grandes realizações foram alcançadas através do trabalho e da espera e muito mais porque alguém sonhou. Portanto, peço-te que cultive a paciência. Por favor, não culpe as pessoas pelas condições em que você se encontrará determinadas vezes. Lembre-se que os fracassos e as vitórias serão fruto do seu trabalho e das suas escolhas.

Quero muito que você tenha uma condição financeira estável para viver melhor. Sim há 50 anos atrás o dinheiro já fazia a divisão de classes. Não sei o país em que você mora, nem imagino como deve ser a família de sua mãe, mas se necessário for, aprenda a conviver com a pobreza honesta e dedique-se a coisas bem mais importantes do que levar ouro e fama para a sua sepultura. E outra coisa que quero te dizer: Por certo eu já morri e imagino que já tenham dito que você também irá morrer. Portanto, não faça nada pela metade e não alimente a ansiedade pelo dia de amanhã, pois nunca sabemos se vamos terminar este. Mas jamais descuide de sua saúde. Ela e somente ela é que nos leva ao caminho da felicidade. Lembre-se de que é necessário muito pouco para uma vida feliz.

Sempre aprenda com os outros que estão à sua volta. Não leve a vida com arrogância pois aquele que ensina a si mesmo tem um sério risco de ter um tolo como professor. Sempre que encontrar em si mesmo algo que o encha de orgulho, examine atentamente e vai descobrir mais do que o suficiente para ficar humilde. É provável que nos seus dias essa qualidade tenha se tornado rara. Nos meus dias também.

E por fim, há um sentimento que talvez você está sentindo ao ler esta carta. É exatamente o que estou sentindo agora. Esse sentimento chama saudade. Com sua magia, a saudade nos faz senti-la por pessoas e lugares que não conhecemos. Não quero que a partir de agora, fique procurando nas pessoas o meu rosto. Não há necessidade. Mas quero que sinta e cultive o doce sabor do poder da saudade. 

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO.

terça-feira, 22 de março de 2016

LIBERDADE


Há tanto do que se libertar e é tao importante se libertar, que a liberdade passa a ser um bem mais importante do que a vida. Constantemente as pessoas arriscam a vida, para ter alguns minutos de liberdade. Nesse momento, a vida passa a ser pequena tamanha a sensação de sentir-se livre. Morrer frente à liberdade, parece ser insignificante. A liberdade conecta ou nos desconecta com as leias e com a realidade? Estar livre é viver fora das normas da lei?

Foi a grande filósofa escritora francesa, Simone de Beauvoir (1908 -1986) que em sábias palavras traduziu o poder da liberdade: "Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria subsistência, já que viver é ser livre". Em outro momento, o poeta escritor português Fernando Pessoa (1888 - 1935 ) nos coloca em cheque quando diz que "a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é possível viver só, nasceste escravo". Que dura sentença.

Mas a verdade é que quase sempre não pensamos naquilo que de fato nos prende e que também não pensamos no que devemos fazer para ser livres. A liberdade parece ser utópica, uma vez que é passiva de questionamento sobre o que é liberdade ou o que nos faz sentir livres. Sempre nos queixamos que não nos sentimos livres, mas nunca nos queixamos daquilo nos aprisiona. Já parou para pensar do que você precisa se libertar?

Há que se libertar da língua que fera e dos comportamentos que aprisionam. Há que se libertar da angústia cruel e da maldade que desola e assola a alma. É possível se libertar da dependência de outros e dos outros que dependemos tantos. Necessário se faz, que sejamos libertos da piedade dos demais e da frieza dos que nos rodeiam.

Que a liberdade empurre pra longe o coração frio, o abraço sem vida, o sorriso sem alegria e o arco ires sem cores. Que ela nos livre do beijo traidor e do toque sem alento. Que possamos ter a ousadia de escolher o que nos faz bem e não somente o que nos dá status.

Libertemo-nos do cansaço que definha, da dor que escraviza, da ilusão que nos engana e da mentira leve que sempre nos confunde. Liberdade dos amigos insensatos e dos namoros comprados. Liberdade do emprego adoecedor e das migalhas que nos engorda dia a dia. Que a liberdade nos afaste do orgulho que nos torna indiferente e da mágoa que nos deprime e arranca nossas lágrimas.

Que a liberdade se achegue e afaste as manias que nos condicionam aos amores que não se prendem a nós. Que possamos aprender mesmo a deixar livre o que amamos e que possamos nos sentir livre, mesmo quando estamos amando alguém. Amar e ser livre é possível? Qual a conta exata dessa equação?

Que o poder da liberdade traga para perto de nós, a capacidade de dizer não, quando de fato queríamos dizer não e que o sim nunca seja dito sob os constrangimentos da prisão. Que a liberdade entregue em nossas mãos, a capacidade de escolher a roupa, o sapato, o cabelo... sem a necessidade de estar preso ao  que dizem ou ao que determinam. Que somente a liberdade nos permita ter o corpo que temos, do jeito que somos sem a necessidade de ter o corpo que o outro determina.

Que com o tempo, a liberdade nos ensine que escolha tem a ver ela própria e que ela mesma nos ensine a fazê-la de forma tranquila e sem prisões.

Paulo Veras é psicólogo clínico e organizacional, psicanalista, especialista em educação especial e inclusiva, especialista em docência do ensino superior e professor universitário em Goiânia-GO


TRABALHANDO COM O MEDO INFANTIL

Senhores Pais, é natural e absolutamente normal que suas crianças pequenas sintam medo. Bem como, o nervosismo é um sentimento natura...